Ao chegar lá, a maioria esmagadora dos profissionais sabe exatamente aquilo que
importa para os funcionários e tenta imprimir uma atuação dedicada a evitar repetir os
problemas que lhe causaram sofrimento enquanto era liderado.
Apesar da boa-fé, a liderança é como um cavalo arredio a ser domesticado, e muitos
não compreendem todas as variáveis envolvidas na gestão de pessoas. Equilibrar
expectativas e frustrações, por exemplo, talvez seja a mais importante delas.
Nem sempre será possível manter todos os pratinhos rodando sem parar, como fazem
os malabaristas, porque existem expectativas antagônicas que jamais serão
simultaneamente saciadas.
É natural na rotina de todo líder ter que encarar situações de frustração. Imagine
manter um time inspirado mesmo quando no momento não se pode dar um aumento
salarial merecido ou quando precisa repactuar prazos de entrega, com pares, pois sua
equipe teve uma queda acentuada de performance com sua chegada. Extremamente
difícil, concorda?
Por essas e outras que liderar vai além de estudar previamente as infinitas
metodologias existentes por aí. Elas são importantíssimas para aumentar seu
repertório teórico na hora de estruturar planos e mediar conflitos, mas não refletem o
ambiente em que você está inserido. Logo, usar fórmulas prontas de liderança sem
olhar o contexto se torna o primeiro erro imperceptível que você precisará evitar.
As receitas de bolo que são comprovadamente benéficas para ambientes de trabalho
foram testadas e aplicadas em contextos que nem sempre se assemelham àqueles
nos quais vivemos, principalmente quando são importadas de fora para o Brasil. Eu,
particularmente, já caí nesse tipo de equívoco ao tentar implantar goela abaixo a
metodologia de gestão de projetos do Project Management Institute (PMI) em uma
empresa que estava em franca expansão e com um ritmo acelerado demais para
diversas burocracias exigidas. É claro que não deu certo. Só depois de calibrarmos o
que fazia sentido, pegando o que era necessário para a companhia e jogando fora os
excessos que a coisa engrenou.
Então, você pode utilizar diversas teorias de gestão, mas nenhuma delas será
totalmente replicável a contento sem ser ajustada ao time e à empresa. Aliás, nem
metodologia, nem a tentativa de imitar um líder anterior.
Tenha em mente que, na maioria das vezes, você assumirá uma posição já existente,
portanto ocupada antes por outro líder que esteve ali, com seus acertos e erros,
prejulgamentos e problemas de relacionamento, os quais você não precisa (e nem
deve) replicar, e sim compreender para tomar suas próprias decisões.
As relações interpessoais são construções individualmente peculiares, e esse fator
não pode ser deixado de lado. Seria ingenuidade imitar frases, brincadeiras e/ou
formas de cobrança de um líder que convivia em plenitude com seu time. A intimidade
dessas relações entre líder e liderado conta muito para se estabelecer no tempo certo
um método eficaz de gestão sem ser confundido com uma caricatura de chefes
anteriores.
Mais uma vez, aqui entra o equilíbrio de expectativas e frustrações. Nenhum liderado
que recebe um novo líder estará à vontade em manter o papo descontraído como
tinha antes, pois não existirá o mesmo nível de intimidade com quem está chegando.
Pelo menos, não ainda.
A inquietação estará concentrada em questões mais imediatas como: se a autonomia
de antes será mantida, se haverá justiça no tratamento, se a equipe estará protegida
de julgamentos levianos e, o mais relevante e complicado de lidar, se promessas e
combinados antigos serão mantidos e cumpridos pela nova gestão.
Passei por inúmeras situações como essas. Assumir a liderança de times inteiros em
que o chefe anterior havia prometido mundos e fundos, como aumentos, horários
diferenciados de trabalho, novos cargos, melhoria de bônus, folgas periódicas fora das
regras da empresa, e por aí vai.
Nem sempre será possível honrar compromissos firmados anteriormente, e isso com
certeza gerará frustração, já outros, menores e plausíveis, poderão ser negociados e
mantidos para ganhar a simpatia da equipe.
Nesse contexto, quero demonstrar que a liderança é uma circunstância individual,
intransferível e baseada na profundidade dos relacionamentos a serem estabelecidos
com seus liderados. Você pode se inspirar em alguém, mas nunca o imitar.
Seu modo de gerir expectativas e contornar frustrações não está escrito em nenhum
livro, e o segredo será deixar claro para a empresa e os liderados que você não é uma
cópia de quem esteve naquela cadeira antes, pois o cenário no qual estará exposto é
completamente diferente.
Ao mesmo tempo, não é salutar querer mudar tudo de uma vez, tampouco implantar
seus métodos em uma cultura preestabelecida sem antes criar pontes e aumentar sua
intimidade com o time.
O caminho é adaptar a liderança ao ambiente, e não tentar mudá-lo imediatamente.
Na ânsia de fazer o que acha correto, muitos líderes de primeira viagem são rotulados
de arrogantes antes mesmo de completarem uma semana na posição, por ignorarem
essa construção prévia de relações.